O que eu acho do FreeBSD

Autor: Cézar Augusto de Campos
21 de abril de 2021

Usar FreeBSD é como ter um carro esportivo exótico que você pode exibir para as pessoas e deixar elas impressionadas com o quão foda você é por estar usando o FreeBSD. Um carro esportivo é caro de se manter, você obtém a atenção das pessoas, mas não consegue usá-lo para trabalhar porque a gasolina está muito cara. Neste caso você guarda o esportivo na garagem e só liga ele nos fins de semana para relaxar e curtir um pouco, você gosta de andar nesse esportivo porque diferente dos outros carros ele dá mais tesão de dirigir e faz você se sentir especial de alguma forma, mas por que toda essa ladainha sobre carros esportivos? Porque usar o FreeBSD no desktop é a mesma coisa.

Um carro esportivo dos anos 90 em bom estado de conservação

Eu instalei o FreeBSD porque eu queria conhecer o ZFS, mas depois que eu descobri que dava para usar a mesma coisa no Linux eu desinstalei o FreeBSD na mesma hora. Isso não é um discurso de ódio contra o BSD, o que estou querendo dizer aqui é que isso é um sistema muito complicado de usar e inviável para o dia a dia. Quando você migra para o BSD você na hora percebe por que eles inventaram o systemd, tudo no BSD, ou melhor, para quase tudo no BSD você precisa ser root para que funcione, quase nada funciona fora da caixa e se você é um usuário de Linux você deve estar acostumado com quase todos os pacotes sendo configurados sozinhos.

O FreeBSD é um sistema operacional muito casca grossa! Ele exige muita paciência e conhecimento técnico do usuário, é como entrar para o Linux pela primeira vez a diferença é que no BSD você não pode contar com a ajuda da "comunidade" pois todos costumam ser rigorosos para com os iniciantes, então quando se trata da instalação e a configuração é só você e o manual.

As manhas do FreeBSD

Isso é para você que já tem conhecimento em como funciona um sistema do tipo Unix como o Linux. Logo no final da instalação você deve criar um novo usuário e adicionar ele no grupo wheel para que você consiga usar o comando su - dentro daquele usuário. Outros grupos relevantes são:

E se não me engano existia outro grupo para você poder usar a impressora, caso contrário o sistema de impressão (CUPS) não funcionaria.

Além dessas manhas com as contas de usuário também tive que configurar manualmente um monte de serviços do sistema que por padrão não vêm habilitados, aliás, quase tudo no BSD você como usuário deve habilitar manualmente em /etc/rc.conf. Isso vale para drivers de vídeo, drivers de áudio, interfaces gráficas e serviços de impressão.

Eu tive muitas outras dores ao usar FreeBSD, mas eu não vou expor aqui para não parecer desabafo.

A falta que o systemd faz

Agora bancando o advogado do diabo, o systemd fez muita falta para mim no FreeBSD, após 6 meses usando-o como meu sistema operacional principal eu percebia que muita coisa era mais difícil de gerenciar porque não existia o comando systemctl. Eu sei... eu sei... As pessoas que vêm do Linux ficam muito mal acostumadas com esse monte de regalias que as empresas de software trazem para gente, porque quase tudo você imaginar pode ser gerenciado com os comandos da suíte de aplicações do systemd. No FreeBSD eu não conseguia achar os logs do sistema, não conseguia achar os registros de uma aplicação específica e também eu não conseguia ver o status geral de todos os serviços igual o comando systemctl proporciona no Linux.

A parte mais difícil de todas era a montagem de disco, para quase tudo no BSD você tem que instalar um pacote e configurá-lo para iniciar junto com o sistema e o mesmo vale para os drivers de sistema de arquivos. Então se você quisesse espetar um pendrive e abri-lo no terminal você primeiro teria que instalar o fusefs-ntfs e carregar o módulo correspondente para daí sim você conseguir montar o sistema de arquivos, o mesmo vale para fat32, ext4 e afins.

Com o systemd você consegue desligar o computador mesmo não sendo root, com o BSD não.

O update-alternatives do Debian

O Debian possui um sistema de alternativas que deixa o sistema operacional ciente de quais programas resolvem certos problemas, o Debian sabe quantos emuladores de terminal existem, quantas interfaces gráficas estão instaladas, qual é o idioma atual e por aí vai... No BSD tudo tem que ser configurado na unha, desde a resolução de tela até o leiaute do teclado. Eu lembro que no FreeBSD eu não conseguia configurar nem o emulador de terminal padrão porque ele não possui um x-terminal-emulator, também não conseguia configurar as variáveis de ambiente pois cada interface gráfica lidava com as coisas de uma forma diferente (enquanto que no Debian tudo fica em /etc/environment). Eu me lembro que até o cursor do mouse era impossível de mudar porque o FreeBSD não possui um x-cursor-theme igual ao Debian, eu falo do Debian porque tenho mais experiência com ele, mas quando se trata da comparação entre BSDs e Linux eu uso o Debian como referência.

Conclusão, tudo é feito para Linux

Infelizmente quase nada do que eu usei no FreeBSD tinha suporte nativo, isso inclui drivers de vídeo e áudio. Eu tive que recompilar o kernel com o suporte Linux habilitado ou em outros casos eu não teria como usar uma interface gráfica no meu desktop e nem ouvir música. Tive problemas para lidar com o Wi-Fi e bluetooth, também tive problemas com pendrives, e por último o que o mais me incomodou é que eu não conseguia usar o escaner da minha impressora no FreeBSD, porque o programa que fazia o escaneamento dependia de algum módulo do systemd (vai a merda systemd!) e por isso eu tinha ficado estressado e desinstalei o sistema operacional.

Em resumo, usar o FreeBSD é como ter um carro esportivo exótico que não serve para se usar no dia a dia, mas apenas para passear fim de semana e se exibir para os amigos. O FreeBSD é uma belezinha como um sistema operacional, porém fica nas mãos do usuário o poder de decisão se vale a pena fazer a migração, este sistema é um sistema muito nichado querendo ou não e por mais que haja pessoas que o usam no desktop eu ainda duvido que essas pessoas possuam alguma paz de espírito.

É isso, não leve a sério tudo o que eu escrevi nessa página, leve na brincadeira. Isso nada mais é do que um relato sobre o meu uso do FreeBSD por 6 meses no meu desktop principal.

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